Deu branco…

O livro do Magro, vulgo songbook, vulgo discografia comentada, terá também alguns causos lá no meio. Causos relacionados aos comentários feitos para cada faixa dos LPs do MPB4 de 1965 a 1980.

Na lida da transcrição das notas deixadas gravadas pelo Magro e da seleção do material que entrará no livro, reli os causos. Nem precisa dizer que foi pura diversão! Deixo pra vocês este aqui, que aconteceu em Maceió nos idos da década de 1970.

MTW

DEU BRANCO…

A nossa memória é um assombro!

Somos capazes de lembrar, praticamente, uma vida inteira nos mínimos detalhes (Proust que o diga…), mas…

Tem dias em que a gente se sente como quem nasceu naquele momento. Não somos capazes de lembrar o que acabou de acontecer… É o “branco”!

Quem nunca teve um? Aquele amigo com quem você viveu aventuras inesquecíveis, como é mesmo o nome dele?

Aquela atriz… que trabalhou com aquele ator… naquele filme… daquele diretor… que foi casado com aquela escritora… esquece, não vou lembrar mesmo!

O MPB4, assim como “zil” artistas, também teve seus “brancos” no palco.

Vou contar dois:

Um que chamarei de “branco coletivo consciente”, e o outro que chamarei, obviamente, de “branco coletivo inconsciente”.

Vamos ao primeiro, que se passou… naquele teatro… daquela cidade…naquele show…

deu branco…

Lembrei! Foi em Maceió, num belo hotel à beira-mar. Show para uma empresa. Década de 1970. Entramos aplaudidos e atacamos a primeira música, sucesso na voz do MPB4, “Partido Alto”.

Esta música foi composta por Chico Buarque para o filme “Quando o Carnaval Chegar” e, na história de Cacá Diegues, era cantada por quatro “malandros” cariocas que dublariam as vozes do MPB4, artista escolhido para gravar a música.

Depois de alguns problemas com a censura (“Na barriga da miséria eu nasci batuqueiro”, ao invés de “brasileiro”, e “Como é que pôs no mundo esta pobre coisica”, ao invés de “titica”), a música foi gravada e transformou-se num grande sucesso do MPB4, razão pela qual havia sido escolhida para abrir o show.

O primeiro verso, depois do refrão que abre a música, é meu e, na hora da minha entrada triunfal, cadê que eu me lembrava das palavras?

“Branco!”, um branco abissal que, para meu maior espanto, deu também nos meus companheiros e que – pode até ser que eu, de tão nervoso, não tenha ouvido uma alma caridosa me soprar a letra – deu também na platéia…

Os acordes do violão me esperando, por “séculos” e eu, congelado, pedindo socorro à memória e aos companheiros.

Pois bem, desistimos de lembrar o verso e a música seguiu, mesmo sem ele. Porque senão estaríamos parados naquele acorde até o momento em que escrevo este “causo”…

O outro “causo”, o do “branco coletivo inconsciente”, eu conto assim que lembrar… quem sabe daqui a duas semanas…

“Deus é um cara gozador, adora brincadeira

Pois pra me jogar no mundo tinha o mundo inteiro

Mas achou muito engraçado me botar cabreiro

Na barriga da miséria eu nasci brasileiro

Eu sou do Rio de Janeiro!”

(Primeiro verso de “Partido Alto”, de Chico Buarque)

Magro Waghabi       

     

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2 respostas para Deu branco…

  1. Cesar Bucker disse:

    se ja foi publicado quero saber onde ,pois quero esta reliquia,grato!

  2. Olá, César
    O livro está em construção e será lançado até o final deste ano. Darei notícias aqui pelo blog e pelo facebook também.
    Abç
    Mônica

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