O dia em que cantei sozinho para um TUCA lotado!

Magro era também contador de causos. Memória invejável e um jeito todo dele de contar tantas e tantas histórias. Em geral, quando queria contar uma história, jogava um fato que tinha a ver com o que estava sendo conversado mas que necessitava de alguma explicação. Aí ficava com aquela cara característica esperando alguém perguntar. Ficava todo feliz ao ouvir um “como assim?” ou um “quem é fulano?”, qualquer coisa que servisse de abridor de porteira e… lá vinha o causo! O causo, as risadas, os comentários…

Certa época, ele começou a colocar no papel alguns desses causos para publicar no site do MPB4. Escolhi um deles pra publicar hoje. O causo tem o nome que está aí em cima, no título do post, e é o que segue. Aconteceu na década de 1970 no teatro TUCA, em São Paulo. Divirtam-se!

MTW

 Será que foi mais um “branco”? Que nada, foi uma certeza absoluta! Eu contra todos. Lembro-me desse caso nos mínimos detalhes.

Pra quem não sabe, tenho uma dificuldade enorme para decorar roteiros de show. Preciso, e se não tiver isto fico em pânico, de um papel com a relação das músicas que compõem o roteiro do show bem aos meus pés. E mesmo assim fico preocupado quando acaba uma música… Será que o roteiro está certo?

A coisa era pior quando fazíamos shows com Chico Buarque. Ele tinha a mania de criar os roteiros já no camarim, minutos antes de entrarmos em cena. Pra piorar, naquela época eu achava que era bom em memorizar os roteiros… Deu no que deu. Vejam vocês:

Final da década de 1960, no TUCA, o belo e gostoso teatro da Universidade Católica, na Rua Monte Alegre, Perdizes, São Paulo. Palco de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, na sua inauguração em 1965, o TUCA foi o começo da carreira de Chico Buarque.

Para o MPB4, o TUCA também foi fonte de muitas boas memórias, inclusive a de um show que gerou a capa e a contracapa do nosso segundo disco. Pois foi lá que nós, Chico e banda fizemos uma bela temporada e onde eu “cometi” meu solo.

Tudo concorria para que eu tivesse certeza “absoluta” do roteiro.

Como eu era o diretor musical do show, as contagens e os andamentos ficavam por minha conta. Isto não é fácil. Além de ter que saber a ordem das músicas, eu também tinha que ter na cabeça o andamento de cada uma. (Nem mais lenta, nem mais rápida, cada música tem o seu andamento ideal, aquele em que ela fica gostosa de ser cantada e ouvida). De maneira que, no terceiro dia da temporada, eu já estava “dominando” o show.

A pior coisa que pode acontecer a alguém é o relaxamento que a certeza de qualquer rotina traz. É o prenúncio do erro… E lá íamos nós.

         Último dia do show, casa lotadíssima, música após música, aplausos e mais aplausos.

Suspense… Aqui cabe falar sobre duas músicas que faziam parte do show: “Rosa dos Ventos” e “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, ambas de Chico Buarque, a primeira, uma toada estilizada; a outra, um samba. Vale dizer, dois tipos de contagem para a banda. Na toada, eu conto quatro tempos; no samba, conto dois. Mas, e isto é importante para a compreensão da história, ambas tinham a mesma tonalidade, ou seja, eram cantadas no mesmo tom.

Bem que eu achei estranho quando, acabada a música anterior, eu mostrava com a mão o número dois e os músicos me respondiam com as mãos indicando o número quatro. Eu devia pensar sobre a relação, quase sempre certa, entre maioria e razão. Mas não, eeeeu tinha “a certeza”!

Miltinho, sem perceber a minha discussão manual com os músicos, deu o tom, eu contei dois e… Entrei, a plenos pulmões, cantando a introdução de “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, enquanto batia furiosamente no meu atabaque.

Enquanto a banda, Chico Buarque, meus companheiros de MPB4 e a platéia que lotava o TUCA, aturdidos, olhavam aquele curioso solo de voz e atabaque fora de hora, eu fui parando devagarzinho, meio encabulado, diminuindo o volume e, não tendo mais o que fazer, perguntei: Não era esta a música?

Tava na cara que não era! A música da vez era “Rosa dos Ventos”. Quem viu, viu.

Magro Waghabi

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2 respostas para O dia em que cantei sozinho para um TUCA lotado!

  1. Neide Tereza disse:

    Saudades do Tuca, saudades do Magro.

  2. Elcio Cáfaro disse:

    Ti ve o privilégio de tocar com eles lá!!

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