Verdade Tropical

Lembrava de um trecho do livro “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso, onde ele relata um fato acontecido durante aqueles tristes anos de chumbo da ditadura militar. Um relato que tem ar de sonho cruzado com dura realidade, onde o MPB4 aparece como personagem. Fui procurar e achei. Reproduzo aqui. Deixo também “Oração ao tempo”, música de Caetano cantada pelo MPB4 com belo arranjo do Magro.

Quando meus pais iam fazer quarenta anos de casados, Bethânia conseguiu das autoridades militares brasileiras uma permissão especial para eu entrar no país. Ao desembarcar no Rio, fui separado de Dedé por três homens que saíram de um fusca estacionado junto à escada do avião. Eram militares à paisana. Eles me levaram para um apartamento na avenida Presidente Vargas e ali me interrogaram e ameaçaram por seis horas. Tive muito medo, muita angústia. Diante de um gravador de rolo ligado (onde terão ido parar essas fitas?), os homens que me levaram – mais os que estavam à minha espera (todos se identificavam como oficiais, mas usavam roupas civis) – exigiram que eu compusesse uma canção de propaganda da Transamazônica, a estrada que o governo começava a construir e que era um dos símbolos do “Brasil Grande”, declinaram a lista dos artistas meus colegas que estavam colaborando com eles (inclusive, segundo eles, como denunciantes de subversivos), pediram esclarecimentos sobre minhas relações com Violeta Gervaiseau e os Arraes no exílio e, quando eu já tinha conseguido me desobrigar de compor sobre a Transamazônica, impuseram as condições de minha estada de um mês: eu teria que seguir logo para Salvador, onde devia permanecer (e de onde não podia sair) até a volta para Londres; estava proibido de cortar o cabelo ou fazer a barba enquanto estivesse em território nacional (temiam que parecesse obra deles); não podia recusar entrevistas com a imprensa, mas teria que dá-las por escrito e submetê-las a leitura prévia por agentes federais que me vigiariam durante toda a estadia; finalmente, era obrigado a fazer duas apresentações na TV, uma no programa de Chacrinha e ou no Som Livre Exportação, o novo musical da TV Globo, para que tudo “parecesse normal”.

Enquanto eu sofria esse interrogatório (em que me diziam repetidas vezes que eu talvez não fosse liberado) Dedé me esperava em casa de Bethânia juntamente com Glauber e Luís Carlos Maciel. Bethânia morava num apartamento na rua Nascimento Silva em Ipanema e a caminhonete da Polícia Federal que me levava (agora já não era o fusca cheio de militares disfarçados, mas uma viatura policial cheia de policiais indisfarçáveis) fez uma volta pelo Jardim de Alá (ou terá sido pelo canal do Leblon?) e ali eu vi pela janela os componentes do conjunto MPB4, que passaram bem perto de mim sem me ver. Senti uma emoção muito forte, uma emoção que se repete toda vez que falo ou penso nisso. Eram as primeiras pessoas conhecidas que eu via nessa chegada ao Brasil, e o fato de vê-los sem ser visto, depois de tantas horas de reiteração da hostilidade com que a repressão me despachara do país, dava à visão um caráter de sonho que amplificava seu poder simbólico. Era músicos, músicos da minha geração e tão brasileiros, e tinham institucionalizado a sigla MPB em seu nome de grupo – eu me sentia diante de uma essência, de uma realidade profunda – e um grande amor (não há outra palavra) pela história, pelo destino se acendeu em mim. Eu os amava como a gente imagina que alguém que já morreu pode amar os que ainda vivem: do ponto de vista da eternidade. Meus olhos se encheram de lágrimas. Não sei se chegaria à casa da Bethânia psicologicamente inteiro se não houvesse havido esse encontro secreto.

Este trecho é parte do capítulo “Ame-o ou deixe-o”, que era o grande slogan da ditadura. (Nossa, lembrei da música que, na minha memória, tocava sem parar nessa época: “este é um país que vai pra frente, oh oh oh oh oh…”). Caetano morava em Londres, por força do exílio.

MTW

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Uma resposta para Verdade Tropical

  1. Sabor Brasil disse:

    Olha s… nunca imaginava que tinham ocorrido esses fatos!

    Aurlio – Sabor Brasil

    Em 28 de fevereiro de 2013 19:06, VOZES DO MAGRO escreveu:

    > ** > Mnica Thiele Waghabi publicou: “Lembrava de um trecho do livro > “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso, onde ele relata um fato acontecido > durante aqueles tristes anos de chumbo da ditadura militar. Um relato que > tem ar de sonho cruzado com dura realidade, onde o MPB4 aparece como > persona”

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