O dia em que o I-ó me telefonou

Esses dias recebi uma mensagem pelo facebook. Era da Fabiana de Lazzari.

Um tal domingo de manhã, devia ser o ano de 2000 ou 2001, Magro me propôs que fôssemos assistir a uma peça de teatro infantil lá pros lados da Rua Cel. Oscar Porto, em São Paulo. Me disse que a única pessoa que um dia quis fazer um fã clube do MPB4 fazia parte do elenco desse musical. Lá fomos nós, num dia friozinho que só. Tomamos café da manhã numa padaria lá perto – o primeiro café da manhã self-service das nossas vidas! Assistimos ao espetáculo e, no final, fui apresentada à Fabiana. Desde então o meu contato com ela se manteve, esparso mas amoroso.

E ela me escreveu dizendo que tinha escrito uma crônica sobre o Magro num dia que a saudade bateu muito, muito forte e queria saber se podia me enviar. Imediatamente respondi pedindo que me mandasse, sim, que eu colocaria aqui no blog.

Vejam que coisa mais preciosa!

De presente, lá no final, o I-ó.

MTW

O dia em que o I-ó me telefonou

O dia exato, não me lembro. Mas sei que era um sábado ou domingo pela manhã. Sei disso porque estavam todos em casa: minha mãe, meu irmão, minha irmã, eu. Todos morávamos juntos, ainda.

O telefone tocou, minha mãe atendeu. Ouviu por alguns segundos o que o outro lado da linha dizia e pousou o gancho do telefone na estante. Um pouco pálida, meio descrente, acho, me falou: É o I-ó. Ele quer falar com você.

Eu não fazia ideia de quem seria o I-ó, do que seria I-ó. Mas o momento não era de perguntas, senti. Peguei o telefone e do outro lado veio a voz inconfundível do Magro: Ô, Fabiana, estamos em São Paulo, e vou deixar uns ingressos para você ir ao nosso show. Tenta ir lá ver a gente.

Era o Magro!

(Claro! Tudo fazia mais sentido! Minha mãe, pasma diante “da voz”, acessou uma informação aleatória, dentre tantas que ela poderia ter acessado: aquela era a voz do jumento, d’Os Saltimbancos! O pão, a farinha, feijão, carne-seca, quem é que carrega… I-ó!)

Fiquei meio encabulada, falei que iria, sim, claro. E que agradecia pela gentileza dele.

Gentileza é a palavra. Com a possibilidade de se colocar como “ídolo”, como “ícone de uma geração”, como maestro e arranjador de músicas que ficaram eternizadas não só pela sua qualidade mas também (e ouso dizer principalmente) pelos arranjos feitos… o Magro optou por ser gentil.

Eu nem sabia que ele tinha meu número de telefone. Se não me engano, eu passei o número para o empresário do MPB-4 no dia em que os conheci pessoalmente. Não: no dia em que o MPB-4 me conheceu pessoalmente, já que eu costumava ir aos shows todos. Volto um pouco mais no tempo.

O dia exato, não me lembro, mas sei que era uma sexta à tarde. Sei disso porque eu estava em um show no vão-livre do Masp, na época em que aconteciam shows ao meio-dia das sextas-feiras, em plena avenida Paulista.

Depois do show – durante o qual eu fizera questão de cantar com a boca bem aberta e articulada, numa tentativa quase ridícula de mostrar aos cantores que eu sabia todas as letras (e sabia, mesmo) –, pedi para falar com o MPB-4. Eu nunca tinha tido essa ideia antes, em outros shows, mas poxa, eles estavam ali, tão pertinho, atrás de um simples biombo! E foi fácil, mesmo. Cinco minutos de espera, e eu estava diante dos 4 da MPB.

Acho que me arrependi por alguns segundos, afinal eu não tinha nada para falar. Juro que quase comecei a cantar as músicas todas. Ainda bem que não fiz isso. Seria bem ridículo. Optei pelo óbvio: Sou muito sua fã, adoro vocês, vocês são maravilhosos, quero até montar um fã-clube.

Aquiles, Miltinho, Ruy e Magro acharam graça. Foi o Magro quem perguntou: Por que uma menina de 14 anos gostava deles??? Por que eu não gostava dos Menudos?

E dali começou uma amizade interessante. Depois do show no Masp, depois do telefonema dado pelo Magro, com o tempo passando, deixei de ser uma moleca de 14 anos que poderia gostar dos Menudos. E posso dizer que passei de fã a fã-e-amiga. E que orgulho tenho de dizer isso.

Sim, porque já moça, depois mulher já, passei a ser amiga do Magro, mas jamais deixei de saber que aquele era um privilégio. Também jamais deixei de saber que meu amigo Magro era o mesmo Magro dono daqueles arranjos todos que eram quase-composição. Que meu amigo Magro era o mesmo Magro intérprete espetacular. Que meu amigo Magro era o eterno “I-ó” que me encantou ainda na infância e que dominou a mente de minha mãe num momento de absoluto sem-saber-o-que-dizer.

Com essa história rica que o Magro deixou para a MPB (e para o MPB!), com essa histórica rica que o Magro deixou na minha vida e na vida dos amigos que sempre o cercaram, fica fácil responder à pergunta que ele me fez quase trinta anos atrás: “Por que uma menina de 14 anos gostava deles??? Por que eu não gostava dos Menudos?” Ok, ok… eu confesso: tempos antes eu tinha gostado dos Menudos. Mas tinha como não gostar do MPB-4???

Meu amigo Magro, você, sua gentileza, sua voz, seu talento, sua generosidade, fazem falta.

Pô, Magro, que saudade.

PS. Sou a favor de o Magro ser colocado como coautor de “Cálice” e “Construção”. Eita, que as músicas são fenomenais, mas os arranjos…

PS2. Mônica, jamais vou esquecer aquele domingo em que você e o Magro foram assistir a uma peça de teatro da qual eu participava. Domingão de manhã, um frio do cão, uma peça para crianças… e vocês dois lá, com sua gentileza. Mas essa história fica para outra vez.

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4 respostas para O dia em que o I-ó me telefonou

  1. José Matos da Silva disse:

    Que belo relato!

  2. Aída Machado disse:

    oi Monica querida, tudo isso tem tanto a carinha do Magro querido!
    beijo com o meu carinho e saudade,
    Aída

  3. Emocionante ! Você, Monica, aumenta cada vez mais a saudade de quem não conhceu o Magro…

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