Almanaque

Magro me disse, certo dia, que gostava do arranjo dessa música, que ele tinha escrito quando da volta de uma viagem a Cuba. Falou que ele tinha o ‘balanço’ da música cubana. Ouçam:

E agora leiam um artigo do Magro  publicado no Caderno Viagem do Jornal do Brasil, na coluna “Eu conheço um lugar”, numa quarta-feira, 26 de julho de 1995.

A MUSICALIDADE E AS BELEZAS ÚNICAS DA PRAIA DE VARADERO

Abri os olhos sem saber onde estava. Sabia que já era dia pela insistência da luz em rasgar as pesadas cortinas, pelo canto de um passarinho numa árvore imaginada e pelo rumor do mar. Aí acordei. Abri as cortinas. Fechei os olhos. Era muita luz, era muito branco, era um azul indescritível!

Era Cuba! Era Varadero. Bendisse a hora em que o MPB-4 foi convidado para participar de um festival de música em Varadero, no final de 1981.

Prá começar não se viajava para Cuba. O destino oficial do grupo de artistas era Miami. De lá, tocados que nem boiada pelos funcionários do aeroporto, embarcamos para Havana onde, depois de passar pela incrível burocracia cubana, pegamos o ônibus que nos levou a Varadero, chegando lá à noite, depois de 24 horas de viagem. Nos hospedamos no Grande Hotel, bem em frente à praia e que ainda guardava os resquícios do luxo que ostentava quando era ocupado pelos americanos. Varadero é uma restinga, em alguns pontos estreita o suficiente para que se percaba o mar dos dois lados. Partindo do hotel, pela praia, depois de uma caminhada de mais ou menos um quilômetro, encontrávamos o que foi a praia particular da mansão dos Dupont.

A maior parte do grupo era formada de cineastas, que foram documentar o festival e tudo o mais que pudessem sobre Cuba. Que eu me lembre: MPB-4, é claro, Chico Buarque e Marieta Severo, João do Vale, que mais tarde recebeu o título de Comandante la Rum, João Bosco, Sérgio Ricardo, Kleyton&Kledir, Nara Leão, Djalma Correia, Francis e Olívia Hime e os cineastas Miguel Farias e Ruy Solber ( deve estar faltando gente, mas afinal, faz tempo).

Varadero reuniu para seu festival delegações de todos os países das Américas Latina e Central. Isso sem contar com o pessoal da terra: Silvio Rodriguez e Pablo Milanes com seu movimento Nueva Trova, e grupos instrumentais maravilhosos como o Son 14. Por isso tudo, enquanto nos preparávamos para a apresentação, tínhamos a oportunidade de conhecer grandes nomes da arte latino americana. Pra mim, foi uma grande emoção poder conhecer e curtir diariamente a maravilha de pessoa que é Mercedes Sosa.

Foram duas semanas em que se respirou música em Varadero. A tal ponto que, na hora de voltar, alguns tiveram que lutar contra pequenas raízes que já começavam a segurá-los naquela praia mágica. O festival foi outra viagem. Uma combinação da competência técnica e de equipamentos com a riqueza incomensurável da música que, lá, foi mostrada. Três palcos móveis mostravam todo tipo de música, da mais antiga à mais moderna, da vocal à instrumental.

E depois do festival? Ou íamos a um dos bailes populares, sempre com música, ou aos festivais de canjas que rolavam nos bares dos hotéis. Insônia era uma palavra proibida em Varadero. Se você acordasse de madrugada, era só descer que o som rolava no bar do hotel ( a mistura rítmica entre brasileiros e cubanos era, no mínimo, excitante). Para acompanhar, pedia-se um mojito ( num copo, longo de preferência, coloque suco de limão, açúcar cristal e folhas de hortelã. Soque um pouco, coloque pedras de gelo e uma dose de Havana Club. Misture bem e enfeite com um pequeno ramo de hortelã).

Apesar da tensão política existente, por causa da ameaça de invasão da ilha, pudemos admirar a emocionante solidariedade entre os cubanos e curtir a musicalidade e a beleza única dessa maravilhosa praia de Varadero!

Ao chegar ao Brasil levei um enorme susto. Era véspera de Natal. Quando percebi estava entrando em outro mar. Não aquele mar límpido, verdazul, de Varadero. Estava entrando no marketing! É Natal! Compre! Vem chegando o menino Jesus! Compre! Papai Noel te espera aqui! Compre! Meu Deus!!!

Antônio José Waghabi Filho, o Magro, é um dos integrantes do grupo MPB-4

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7 respostas para Almanaque

  1. Mônica, também adoro este arranjo. E adorei a crônica!

  2. Obrigada Mônica!Presentâo!Bjs.

  3. Olá , Olivia HIme não foi a Varadero. Nem Francis. Quem cantou em Varadero nessa viagem fui eu. Cantei a Bachiana 5 de Vila Lobos acompanhada do violão de Ricardo Simões. Nos bastidores naquela noite fui convidada por Silvio Rodriguez para gravar um disco pela EGREM gravadora cubana.Voltei lá e passei dois meses gravando Identidad em Havana. O disco saiu no Brasil pela Som LIvre. Pena que o Magro teve esse lapso de memória.

  4. Republicou isso em VOZES DO MAGROe comentado:

    Recebi hoje uma mensagem da Olívia Byington e resolvi reblogar esse post para corrigir um lapso de memória do Magro. Ela conta que quem esteve em Varadero foi ela e não a Olívia Hume, como consta na matéria. Bom que ficamos com mais um pedacinho dessa história, como vocês podem ler no texto que reproduzo aqui.
    “Olivia Hime não foi a Varadero. Nem Francis. Quem cantou em Varadero nessa viagem fui eu. Cantei a Bachiana 5 de Vila Lobos acompanhada do violão de Ricardo Simões. Nos bastidores naquela noite fui convidada por Silvio Rodriguez para gravar um disco pela EGREM gravadora cubana.Voltei lá e passei dois meses gravando Identidad em Havana. O disco saiu no Brasil pela Som LIvre. Pena que o Magro teve esse lapso de memória.”
    Fica aqui o pedido público de desculpas em nome do Magro. São tantas histórias que, vez ou outra, a memória falha mesmo…

  5. Republicou isso em VOZES DO MAGROe comentado:

    Recebi hoje uma mensagem da Olívia Byington e resolvi reblogar esse post para corrigir um lapso de memória do Magro. Ela conta que quem esteve em Varadero foi ela e não a Olívia Hume, como consta na matéria. Bom que ficamos com mais um pedacinho dessa história, como vocês podem ler no texto que reproduzo aqui.
    “Olivia Hime não foi a Varadero. Nem Francis. Quem cantou em Varadero nessa viagem fui eu. Cantei a Bachiana 5 de Vila Lobos acompanhada do violão de Ricardo Simões. Nos bastidores naquela noite fui convidada por Silvio Rodriguez para gravar um disco pela EGREM gravadora cubana.Voltei lá e passei dois meses gravando Identidad em Havana. O disco saiu no Brasil pela Som LIvre. Pena que o Magro teve esse lapso de memória.”
    Fica aqui o pedido público de desculpas em nome do Magro. São tantas histórias que, vez ou outra, a memória falha mesmo…

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