A repórter Conceição

Como vocês já sabem, o Magro era um grande contador de causos. Adorava desfiar uma história para uma plateia de olhos atentos. Cavucava e aguardava a hora certa para iniciar um relato que fazia os ouvintes se desligarem de tudo mais e embarcarem na viagem comandada por ele.

O livro terá causos que o Magro passou pro papel, mas somente os relativos ao período de 1965-1980. Já postei dois deles aqui no blog e agora aproveito para postar os que não estarão no Vozes do Magro, iniciando por este aqui. Divirtam-se!

A REPÓRTER CONCEIÇÃO

Que este país precisa de uma reestruturação cultural, creio que ninguém tem dúvida. É, mas para clarear esta afirmação, eu posso estar mostrando vários exemplos do que estarei dizendo. E se você, ainda assim, não estiver tendo concordância comigo, é só estar dando uma passada de olhos nos jornais para estar confirmando minha assertiva… Mas o pior é quando você está tendo de ser obrigado a estar falando com um desses 0800 da vida, e o moço ou a moça estiverem tendo que estar tentando lhe empurrar algum produto… Argh! Aí você vai estar não se aguentando de vontade de estar dando um tiro na cabeça!Deles.
E é, naturalmente, na área do jornalismo que esta deficiência aparece com mais ênfase. Jornalismo sem uma boa base cultural resvala para a galhofa.
Mesmo não tendo feito a faculdade de jornalismo, imagino que algumas regras são absolutamente necessárias. Por exemplo, não concebo um repórter ir para uma entrevista sem antes pesquisar sobre o entrevistado ou sobre o assunto dela. Ainda mais agora, com o vasto campo de busca criado pela internet.
E dói muito quando isto acontece, e frequentemente acontece, com o MPB4, pelas próprias características da nossa profissão. Vez por outra, ao chegarmos a alguma cidade para fazermos o nosso show, nos deparamos com repórteres, destacados para cobrir o evento, completamente desinformados a respeito do que vão cobrir. E aí é inevitável uma sucessão de absurdos, gerando reações já características em nós.
Foi assim. Show de lançamento de mais um disco, coletiva de imprensa no teatro e, sempre acontece, um ou outro repórter que chega atrasado. Nesse dia foi ela, trazendo em seu bloco de anotações a surpresa em forma de dúvida.
Quando surge uma pergunta descabida, Aquiles pede para ir ao banheiro e não volta mais; Dalmo engasga e começa a tossir; eu tenho um incontrolável ataque de riso, e Miltinho se arma de paciência para levar o nosso entrevistador para outros caminhos menos dolorosos.
Mas naquela tarde, em Belo Horizonte, nada foi possível fazer. Simplesmente ninguém se mexeu, paralisados que ficamos com a poderosa pergunta feita pela nossa entrevistadora, a repórter “Conceição”.
Na verdade, seu nome era outro, mas hoje ninguém lembra mais. Naquele fatídico momento, nós a batizamos Conceição. E este passou a ser o nome de referência de todos os repórteres desinformados – foram muitos e ainda há muitos por vir – que cruzaram nosso caminho por este imenso Brasil.
Ela chegou bonitinha, microfone na mão, com seu sotaque característico das Minas Gerais, uma simpatia!
– “Batarde, tudbem coceizzzz?” Tradução: Boa tarde, tudo bem com vocês?
– Tudo bem, é bom voltar aqui a Minas, um estado muito especial pra nós. Respondemos quase em uníssono.
E estas foram as nossas últimas palavras. Porque, após sentarmos e tomarmos o inevitável cafezinho das entrevistas, ela sapecou a primeira e última pergunta, que caiu como uma devastadora bomba sobre nós.
-“Cuanceizzzsão?” Tradução: Quantos vocês são?
Terminou a entrevista.
Nascia ali a repórter Conceição.

Magro Waghabi

 

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3 respostas para A repórter Conceição

  1. Aída Machado disse:

    que maravilha o Magro! genial!!
    Aída

  2. Posso imaginar a situação…Bom demais!!

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