Dia do trabalho

Me parece um dia bem propício para publicar um post com um causo do Magro sobre fato ocorrido num desses dias primeiro de maio da vida.

Antes, porém, falo que estou terminando mais uma revisão do “Vozes do Magro”, prestes a ir para a gráfica. Foi nela que reli esse causo que vou postar aqui. E, mais uma vez, li também sobre a música “Linha de montagem” (Novelli e Chico Buarque), parte do LP “Vira, Virou”, de 1980, que Magro diz que é como uma homenagem ao ABC paulista. Era uma época ainda negra de nossa história, onde os movimentos sindicais floresciam e necessitavam do apoio da classe artística. E, claro, lá estava o MPB4, louvando sua origem como quarteto do CPC de Niterói nos idos de 1963. Ouçam aqui.

 

E aqui vai o causo sobre um show do dia dos trabalhadores no estádio do Morumbi, em São Paulo. No final, outra música, relacionada ao causo. Boa leitura! E boa escuta!

A LUA E OS QUATRO SERESTEIROS

Por Magro Waghabi

A festa dos trabalhadores, no dia 1º de maio, promovida pelo CEBRADE, estava ameaçada pela chuva.

Pelo segundo ano, após a explosão das bombas no Rio Centro, a comemoração do dia do trabalho seria feita fora do Rio de Janeiro. Em 1982 foi no Estádio Beira Rio, em Porto Alegre, e em 1983 seria a vez de São Paulo, no estádio do Morumbi.

Mas a chuva que caia sobre a cidade já havia provocado um adiamento e, pelo que se via, o tempo não queria ajudar. Fomos ao Morumbi com Carlos Manga, diretor do show, e a visão do palco encharcado nos desanimava.

A chuva parou. Embora as nuvens ameaçassem começar a chorar novamente, fomos para o estádio e nos preparamos para o espetáculo anual com que os artistas presenteavam os trabalhadores, comemorando com eles o seu dia.

Apesar de, naquele ano de 1983, a chuva ter causado um dia de atraso, eles compareceram em massa para ouvir e ver seus cantores e compositores favoritos. O Morumbi ia enchendo, enquanto, nos bastidores, aumentava a tensão em relação às pesadas nuvens que ainda cobriam São Paulo.

Mas, como diz o ditado, quem está na chuva é pra se molhar. O show começou sob um céu pesado e desatento.

Abro um parêntese: o MPB4 estava numa ótima fase artística. Depois de um tempo de calmaria na música brasileira em geral, e na vocal em particular (só nós e o Quarteto em Cy estávamos em atividade e nos sentíamos à beira da estagnação), dois acontecimentos, felizmente, nos acordaram: a chegada da Ariola, gravadora disposta a empolgar o melhor da MPB, reacendendo o fogo na nossa música. E, no caso do MPB4, o surgimento do Boca Livre, conjunto vocal com propostas novas e um som que rompia com os conceitos acomodados, cuja gravação de um disco  independente, impulsionado que foi por uma nova rádio carioca, a Rádio Cidade, superou todas as expectativas, vendendo mais de cem mil cópias.

Era a hora de uma concepção renovada e topamos o desafio. Gravamos “Vira, Virou”, nosso disco de estréia na Ariola, insuflados  por esses novos ventos. E foi bom! Uma verdadeira virada na vida do MPB4. Um disco forte e alegre – sem perder de vista a nossa postura política, com músicas como “Linha de Montagem”, de Novelli e Chico Buarque – que abriu uma nova forma de cantar para o MPB4. Na leveza e na alegria de músicas como “A Lua”, de Renato Rocha, o MPB4 mostrava uma face mais descontraída, reflexo dos tempos que então vivíamos. Fecho parêntese.

O show continuava. Estava na hora de entrarmos. Um público caloroso e atento enchia o Morumbi. O tempo continuava rancoroso…

– Está na hora. Vamos! Começamos a cantar.

(Em nosso repertório não poderiam faltar dois sucessos: “Vira, Virou” (Kleiton Ramil) e “A Lua”).

Mas foi quando cantamos “A Lua” que o causo se deu. No meio da música o público começou a aplaudir e a apontar para nós. Fiquei arrepiado e emocionado, mas logo comecei a perceber que não era exatamente para nós que eles apontavam. Era acima de nós que algo acontecia… aí a emoção ficou incontrolável.

Ao olharmos para trás e para cima, percebemos que tínhamos mais uma linda espectadora, uma lua vaidosa e cheia de luz que abrira uma janela nas nuvens para escutar os quatro seresteiros que cantavam: “Mente quem diz que a lua é velha…”

Quem viu, viu!

MTW

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2 respostas para Dia do trabalho

  1. Neice Tereza disse:

    Assisti ao show Cobra de Vidro e ao Bons Tempos, hein? Inesquecíveis!!!!! Aprecio demais vocês todos e o repertório que escolhem. Viva a MPB !

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