Fabiana De Lazzari

O dia em que o I-ó me telefonou

O dia exato, não me lembro. Mas sei que era um sábado ou domingo pela manhã. Sei disso porque estavam todos em casa: minha mãe, meu irmão, minha irmã, eu. Todos morávamos juntos, ainda.

O telefone tocou, minha mãe atendeu. Ouviu por alguns segundos o que o outro lado da linha dizia e pousou o gancho do telefone na estante. Um pouco pálida, meio descrente, acho, me falou: É o I-ó. Ele quer falar com você.

Eu não fazia ideia de quem seria o I-ó, do que seria I-ó. Mas o momento não era de perguntas, senti. Peguei o telefone e do outro lado veio a voz inconfundível do Magro: Ô, Fabiana, estamos em São Paulo, e vou deixar uns ingressos para você ir ao nosso show. Tenta ir lá ver a gente.

Era o Magro!

(Claro! Tudo fazia mais sentido! Minha mãe, pasma diante “da voz”, acessou uma informação aleatória, dentre tantas que ela poderia ter acessado: aquela era a voz do jumento, d’Os Saltimbancos! O pão, a farinha, feijão, carne-seca, quem é que carrega… I-ó!)

Fiquei meio encabulada, falei que iria, sim, claro. E que agradecia pela gentileza dele.

Gentileza é a palavra. Com a possibilidade de se colocar como “ídolo”, como “ícone de uma geração”, como maestro e arranjador de músicas que ficaram eternizadas não só pela sua qualidade mas também (e ouso dizer principalmente) pelos arranjos feitos… o Magro optou por ser gentil.

Eu nem sabia que ele tinha meu número de telefone. Se não me engano, eu passei o número para o empresário do MPB-4 no dia em que os conheci pessoalmente. Não: no dia em que o MPB-4 me conheceu pessoalmente, já que eu costumava ir aos shows todos. Volto um pouco mais no tempo.

O dia exato, não me lembro, mas sei que era uma sexta à tarde. Sei disso porque eu estava em um show no vão-livre do Masp, na época em que aconteciam shows ao meio-dia das sextas-feiras, em plena avenida Paulista.

Depois do show – durante o qual eu fizera questão de cantar com a boca bem aberta e articulada, numa tentativa quase ridícula de mostrar aos cantores que eu sabia todas as letras (e sabia, mesmo) –, pedi para falar com o MPB-4. Eu nunca tinha tido essa ideia antes, em outros shows, mas poxa, eles estavam ali, tão pertinho, atrás de um simples biombo! E foi fácil, mesmo. Cinco minutos de espera, e eu estava diante dos 4 da MPB.

Acho que me arrependi por alguns segundos, afinal eu não tinha nada para falar. Juro que quase comecei a cantar as músicas todas. Ainda bem que não fiz isso. Seria bem ridículo. Optei pelo óbvio: Sou muito sua fã, adoro vocês, vocês são maravilhosos, quero até montar um fã-clube.

Aquiles, Miltinho, Ruy e Magro acharam graça. Foi o Magro quem perguntou: Por que uma menina de 14 anos gostava deles??? Por que eu não gostava dos Menudos?

E dali começou uma amizade interessante. Depois do show no Masp, depois do telefonema dado pelo Magro, com o tempo passando, deixei de ser uma moleca de 14 anos que poderia gostar dos Menudos. E posso dizer que passei de fã a fã-e-amiga. E que orgulho tenho de dizer isso.

Sim, porque já moça, depois mulher já, passei a ser amiga do Magro, mas jamais deixei de saber que aquele era um privilégio. Também jamais deixei de saber que meu amigo Magro era o mesmo Magro dono daqueles arranjos todos que eram quase-composição. Que meu amigo Magro era o mesmo Magro intérprete espetacular. Que meu amigo Magro era o eterno “I-ó” que me encantou ainda na infância e que dominou a mente de minha mãe num momento de absoluto sem-saber-o-que-dizer.

Com essa história rica que o Magro deixou para a MPB (e para o MPB!), com essa histórica rica que o Magro deixou na minha vida e na vida dos amigos que sempre o cercaram, fica fácil responder à pergunta que ele me fez quase trinta anos atrás: “Por que uma menina de 14 anos gostava deles??? Por que eu não gostava dos Menudos?” Ok, ok… eu confesso: tempos antes eu tinha gostado dos Menudos. Mas tinha como não gostar do MPB-4???

Meu amigo Magro, você, sua gentileza, sua voz, seu talento, sua generosidade, fazem falta.

Pô, Magro, que saudade.

PS. Sou a favor de o Magro ser colocado como coautor de “Cálice” e “Construção”. Eita, que as músicas são fenomenais, mas os arranjos…

PS2. Mônica, jamais vou esquecer aquele domingo em que você e o Magro foram assistir a uma peça de teatro da qual eu participava. Domingão de manhã, um frio do cão, uma peça para crianças… e vocês dois lá, com sua gentileza. Mas essa história fica para outra vez.

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